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11.08.2006

As Características da Pista de Corrida do Jockey Clube do Paraná
A. Busato1; L. P. Boldrini2 & M. Jahnel3
1 Orientador
2 Acadêmico do Curso de Ciências Eqüinas
3 Colaborador
Curso de Ciências Eqüinas
Pontifícia Universidade Católica do Paraná


Resumo – Este artigo tem como objetivo demonstrar as características encontradas na pista de corrida do Jockey Clube do Paraná em junho de 2006, para que no futuro esses dados possam auxiliar outros trabalhos no que diz respeito ao melhoramento do desempenho e saúde dos animais que utilizam a pista ou outras áreas de tráfego de cavalos, onde tais dados possam vir a serem úteis.

(Palavras-chave: pista de areia, Jockey Clube do Paraná, corrida de cavalos).


Introdução

Independente do Esporte Eqüestre a ser realizado, da raça do cavalo que estiver competindo, da habilidade do cavaleiro e do cavalo, um dos fatores comuns a todos sempre será a pista; local onde esse cavalo irá demonstrar suas habilidades. Hoje os órgãos responsáveis no Brasil pelas provas eqüestres somente atentam em padronizar a classificação do piso da pista: se a mesma será de areia, grama, saibro, etc. e dimensões a serem utilizadas em cada esporte; porém não encontramos padrão relacionado ao material utilizado para compor essas pistas, bem como uma metodologia padronizada de construção das mesmas. Por conta disso, cada entidade organizadora de prova a nível oficial estabelece o padrão que bem entender.

Levando em consideração que a maioria das pistas de esportes eqüestres oficiais no Brasil é de areia, esse trabalho tem como objetivo caracterizar a pista de areia usada atualmente no Jockey Clube do Paraná; facilitando posteriormente maiores estudos relacionados à formação, manutenção e conservação das pistas que utilizam os mesmos princípios e materiais na sua construção.
Metodologia

Para o desenvolvimento desse trabalho foram utilizadas duas etapas; sendo a primeira um questionário dirigido a três tipos de profissionais que atuam diretamente no Jockey Clube do Paraná: treinadores, jockeys e veterinários; e análises laboratoriais para a determinação da granulometria da areia; teor de umidade (na curva e na reta) e quantidade de areia existente (na curva e na reta).

Resultados

Resultados referentes à pista e as condições climáticas:
Encontrou-se aqui uma diferença na pista em relação ao seu estado. Em dias secos e sem chuvas a pista se torna seca, o que provoca algumas dificuldades no manejo dos animais. A grande presença do pó causa o aumento de casos de doenças pulmonares nos animais e jockeys, que inalam a poeira constantemente. Encontrou-se também uma falta de aderência e firmeza na pista para os animais trabalharem, onde os mesmos afundam os membros na areia, fazendo muito mais força que o normal para manter a velocidade. Com isso o rendimento dos animais tende a cair e há um provável aumento de lesões por uma necessidade de esforço maior.

Em dias de muita chuva encontramos uma pista em estado encharcado. Um acúmulo de água muito grande na pista demonstrou uma provável deficiência na sua drenagem. A condição de uso nesse perfil de pista, segundo seus usuários, é a pior possível. Além do acúmulo indesejado de água na pista, o aparecimento de inúmeros buracos devido a uma falta de manutenção é grande. A presença destes buracos torna o trabalho do jockey e do treinador ainda mais complicado, pois inúmeros animais se lesionam de alguma forma ou até mesmo se fraturam por pisarem nos buracos. Outra característica desse perfil de pista é também, a força que os animais têm que fazer para trabalhar. Devido à falta de areia em alguns trechos, (FIG. 1) a base da pista acaba exposta; e pela pista estar encharcada e o solo dessa base ser de origem argilosa, esse material acaba aderindo nos cascos dos cavalos fazendo com que os mesmos tenham de fazer mais força para se moverem, como no caso da pista seca e é justamente essa força em excesso que pode machucar os animais. Outro ponto bem frisado pelos profissionais é o grande número de cavalos que ao treinar nesta condição de pista retornam com lesões nos machinhos, (sob os boletos), acarretando custos com tratamentos.

O terceiro perfil de pista analisada é o que chamamos de pista molhada. Nesse perfil de pista, a mesma é irrigada até que chegue ao padrão esperado para sua melhor utilização. Encontramos esse perfil também quando chove de forma moderada, onde a chuva apenas umedece a pista. Nesse tipo de pista o problema do pó praticamente desaparece, as condições da falta de aderência e firmeza são praticamente eliminadas e por permitir uma melhor manutenção, os buracos não são mais um problema generalizado. Essa seria a condição ideal de trabalho na pista.


FIG. 1 – Falta de areia no trecho da reta entre os 1.300 m aos 1.200 m

Observações referentes ao uso diário da pista e sua manutenção:

O uso da pista de corrida do Jockey Clube do Paraná é feito diariamente de forma constante, salvo aos Domingos onde a grande maioria dos animais recebe sua folga semanal. A presença de uma pista lateral exclusiva para treinos é algo muito superficial. Dos entrevistados, todos alegaram que 95% dos seus animais fazem o trabalho de treino na pista de corrida e não na destinada para treinos, por conta da menor quantidade de areia e falta de manutenção da pista de treino, o que faz com que suas características se tornem perigosas para os animais.
No que se refere ao uso da pista principal durante as competições, além do que já descrito anteriormente, atentamos ainda aos seguintes pontos levantados pelos jockeys e treinadores: Primeiro: animais que correm ou correram em pista de grama e vem disputar corridas em pista de areia, naturalmente sentem mais dificuldades e muito raramente mantém o mesmo tempo que conseguiam na pista de grama; em animais que correram a sua vida inteira em pista de areia e fazem algumas corridas em pista de grama, alguns não voltam a correr como antes na areia e em alguns casos se recusam a correr na areia novamente. Segundo: animais que foram treinados em pistas onde a base não é composta por concreto e asfalto e vão competir em pistas com essas características, têm que se adaptar à pista – uma vez que a pista com base de concreto e asfalto é mais rápida e dura, mas quando se adaptam, em sua maioria são competitivos. O oposto já não é verdadeiro. Animais que sempre correram em pistas com base de concreto e asfalto e que nunca correram em pistas com base argilosa, mesmo após período de adaptação, em sua grande maioria não são tão competitivos com animais que foram preparados ou que sempre correram nas pistas de base mais mole. Outro dado importante é que a porcentagem de animais com lesões nas pistas com base de concreto e asfalto é muito mais alta. No que se refere à manutenção da pista, há um descontentamento generalizado. As características percebidas em relação às condições climáticas, são em sua maioria, um reflexo da falta da manutenção adequada. A pista seca, se molhada de uma forma eficiente se tornaria uma pista molhada, o que é o perfil realmente procurado. Se houvesse manutenção da pista encharcada com grades e rolos, não se acumulariam os buracos, amenizando muito as lesões nos animais. Note-se ainda, a presença de pedras (FIG. 2), que se faz freqüente na extensão da pista devido ao tráfego dos animais atingirem a base com muita facilidade e as trazerem para a superfície da pista. Outro ponto de critica da pista é com relação ao mecanismo de irrigação existente atualmente (FIG. 3). O equipamento não consegue ter pressão suficiente para irrigar toda a pista e molha apenas metade da raia, deixando ainda poças de água na frente do irrigador, encharcando a pista nesses trechos. .


FIG. 2 – Pedra encontrada ao lado do rastro de um cavalo. (Trecho da reta entre os 1.300 m aos 1.200 m)



FIG. 3 – Sistema de Irrigação usado no Jockey Clube do Paraná.

Resultado da análise granulométrica:
Perceberam-se diferenças na granulometria da areia nos pontos analisados, como mostram os gráficos (FIG. 4 e 5). Nota-se um aumento na porcentagem dos grãos maiores: entre 1,3 mm a 0,59 mm, no centro da pista, tanto na reta como na curva. Os grãos que compreendem uma granulometria menor, entre 0,42 mm a menores que 0,25 mm, encontram-se em maior quantidade nas extremidades da pista.


Resultado do teor de umidade:
Para essa análise utilizou-se um ponto de referência fornecido pelo jockey (trecho da reta dos 200m aos 100m) que seria o ponto ideal de uso da pista, com relação à umidade da areia. Com base nessa referência foi construído um gráfico (Fig. 6), onde se encontrou um solo mais seco na parte interna da pista, tanto na curva como na reta. Conforme as amostras chegam ao centro da pista, o teor de umidade aumenta. Na curva, encontrou-se um excesso de umidade em um dos pontos próximo a parte externa da pista.

Resultado da quantidade de areia:
O resultado da análise de campo mostra a quantidade de areia existente em cada local analisado. Existe uma variação por todos os pontos analisados, o ideal seria esse valor se manter estável e o mais próximo possível de um valor que corresponda a uma profundidade confortável para o animal, que seria por volta de 70 mm (LODGE e SHANKS, 1994 e YOUFU 2002).

Observando os gráficos (FIG. 7, 8, 9 e 10) podemos fazer uma comparação com os locais analisados, e notarmos a falta de areia na parte interna da curva quando comparada à parte interna da reta. Outra característica observada é uma diferença na quantidade de areia encontrada na parte interna da raia em relação à externa (trecho da reta dos 1.400 m); já no trecho da reta dos 1.200 m essa característica não é observada, onde a quantidade de areia encontrada na parte interna da raia se estende homogeneamente por mais da metade da raia.

Nas FIG.s 11 e 12, podemos observar uma comparação entre os locais analisados no que se diz respeito à quantidade de areia.

Conclusões

O objetivo desse trabalho foi exclusivamente de caracterizar a pista de corrida do Jockey Clube do Paraná como ela se encontra atualmente.

Após a análise dos resultados, fica claro o quanto difícil é construir e manter uma pista de esportes eqüestres. Todas as necessidades para a construção e manutenção de uma pista são complexas e um pequeno erro pode desencadear outros.

A importância de uma cooperação entre os usuários e profissionais que a utilizam, e a importância de uma caracterização da pista ficou patente. Sem as informações fornecidas e a experiência de cada grupo profissional entrevistado, a coleta dos dados corretos seria impossível.

Com relação aos dados técnicos, foi amplamente comprovado que a pista de corridas analisada não é homogênea sob vários aspectos, e que essas diferenças podem prejudicar os animais e usuários da pista. Com um estudo desse tipo em mãos, fica mais fácil pontuar os motivos e a localização exata dos problemas nesta e em outras pistas similares, e quem sabe em um futuro próximo, efetivar o aprimoramento da pista com investimentos nos pontos problema, o que levaria a uma boa economia de recursos. Assim procedendo, poder-se-ia chegar o mais próximo possível de uma pista ideal para o trabalho de animais de alto padrão genético e alto valor comercial com segurança, qualidade e viabilidade econômica.


FIG. 4 – Diferenças na granulometria na reta. (Trecho dos 1.300 m aos 1.200 m)


FIG. 5 – Diferenças na granulometria na curva. (Trecho dos 800 m aos 700 m)




FIG. 6 – Diferença no teor de umidade encontrado na reta e na curva, em comparação com o valor referencial.


FIG. 7 – Diferença na Quantidade de Areia no inicio da reta (1.400 m aos 1.300 m)


FIG. 8 – Diferença na Quantidade de Areia no meio da reta (1.200 m aos 1.100 m)


FIG. 9 – Diferença na Quantidade de Areia no inicio da curva (900 m aos 800 m)


FIG. 10 – Diferença na Quantidade de Areia no meio da curva (800 m aos 700 m)


FIG. 11 – Comparação da Quantidade de Areia na Reta.



FIG. 12 – Comparação da Quantidade de Areia na Curva.


Referências

[1]LODGE,R.; SHANKS,S.. All-Weather Surface for Horses. London, 1994.

[2]YOUFU,K.. Stage for the Japan Cup & Japan Cup Dirt 2002. Disponível em:
< http://www.jair.jrao.ne.jp/journal/v10n2/j1000f.html > Acesso em: 14 Junho 2006.

Agradecimentos: A minha orientadora Professora Adriana Busato, pela sua ajuda e incentivo no desenvolvimento do trabalho; ao meu colaborador, Professor Marcelo Jahnel pela sua paciência, esclarecimentos e ajuda na confecção do trabalho e aos profissionais do Jockey Clube do Paraná em especial ao Sr. Márcio Gusso, Sr. Pedro Nickel Filho, Sr. Emerson Cruz e o Dr. Pedro Michelotto pela colaboração e ajuda na coleta dos dados.

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